O Programa de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) está atuando desde setembro (2017), com três turmas distribuídas nos campus: Jorge Amado (Itabuna), Sósigenes Costa (Porto Seguro), Paulo Freire (Teixeira de Freitas). A universidade, que vem atuando no Sul e Extremo Sul da Bahia, têm levantado diversas discussões pertinentes para esse território e para todo o país no que tange o debate sobre as diversas identidades que se cruzam nos corpos dos sujeitos. Fazendo-nos refletir e repensarmos a respeito das relações de poder, relações e configurações raciais e entender como esses aspectos atingem diretamente os espaços de educação formal.
Pensando o PPGER inserido na conjuntura histórica, socioeconômica, cultural e principalmente políticas, temos desenvolvidos nossas pesquisas, atuações e debates acompanhando atentamente o desmanche da Constituição brasileira através da retirada de direitos e anulação das populações tradicionais e dos movimentos sociais que estão sendo invizibilizadas desconsiderando totalmente o histórico de lutas e batalhas travadas por esses sujeitos. No que tange o espaço de atuação do campus Paulo Freire, na importância política do PPGER nesse lócus de enunciação e diante de diversas inquietações e discussões entre os pares do programa, emerge a urgência de constituir um evento que socializará com toda a comunidade do sul baiano os debates que perpassam pelo nosso curso e que atinge a população brasileira como um todo. Do Golpe (Impeachment) da presidenta eleita Dilma Rousseff ao genocídio dos jovens negros que só aumenta de acordo os dados do IPEA, passando pelo debate de reintegração de posse de terras indígenas no nosso território e dos processos de demarcação de terras dos povos originários engavetados; principalmente o aumento da violência contra a mulher e a assassinatos de LGBT’s, como foi o caso de Matheusa Passareli nesse mês de maio, sem esquecer o a assassinato da Vereadora Marielle Franco. Os retrocessos políticos e sociais que vêm ocorrendo permitem que possamos construir o seminário de forma a problematizar os acontecimentos atuais que necessita um olhar atravessado pela interseccionalidade de raça, classe e gênero.
Com base nesses fatos, iniciaram-se os trabalhos de elaboração do projeto do I Seminário Regional de Ensino e Relações Étnico-Raciais que traz como recorte temático em Mulheres, Culturas e Políticas, abrangendo diálogos interseccionais, memórias, poder e resistências no sul baiano a ser realizado na UFSB- CPF em Teixeira de Freitas-BA, a maior cidade do Extremo Sul baiano. Esse município é o polo comercial da microrregião, possuindo uma localização geográfica estrategicamente privilegiada sendo esta cortada por duas rodovias a federal (BR 101), e uma estadual (BA 290). Academicamente, a cidade é considerada um polo educacional do território de identidade do Extremo sul, tendo em vista que na cidade está instalada a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano (IFBaiano), além de faculdades particulares como a Faculdade do Sul da Bahia (FASB I e II) e Faculdade Pitágoras, dentre outras que trabalha com modalidade EAD. Acolhendo estudantes das mais diversas localidades urbanas, comunidades tradicionais e rurais pertencentes aos diferentes municípios que fazem fronteira com a cidade.
Dialogando com o contexto o local o I Seminário Regional de Ensino e Relações Étnico-Raciais – Mulheres, culturas e políticas: Diálogos interseccionais, memória, poder e resistências no Sul baiano busca debater gênero de forma a compreender como um fenômeno social e histórico, trazendo os diálogos promovidos em espaços formais e informais sobre a marca da desigualdade entre homens e mulheres. Tal debate pretende proporcionar reflexões e ações transformadoras em prol à equidade entre estes sujeitos sociais, homens e mulheres e mulheres em condições raciais, históricas, políticas e econômicas diferentes. Principalmente quando pensamos a região do Sul e Extremo-Sul baiano que segundo o Mapa da Violência (2015) nos mostra que houveram 517 mortes registradas nos 70 municípios da região. As duas microrregiões sustentam os dois primeiros lugares no ranking das áreas com maiores taxas de estupro da Bahia, enquanto no Extremo-Sul ocorreram 27,1 casos para grupo de 100 mil habitantes, no Sul essa taxa foi de 21,8. Estatísticas que podem ser questionadas visto que muitas mulheres não procuram os órgãos competentes de proteção por desconhecerem seus direitos fundamentais, ou seja, os números podem ser bem maiores do que a pesquisa mostra. Portanto, faz-se necessário e urgente o debate interseccional das lutas das mulheres perpassando pelas suas atuações políticas, culturais e de resistências inseridas nos diversos espaços sociais.
Entendendo a importância da luta das mulheres desse país, achamos necessário (marcar) o nosso evento com mulheres que nos represente tanto no seu corpo político assim como no seu lócus de enunciação. Então criamos a marca do evento com duas sujeitas que para nós é a maior expressão das nossas lutas diárias – Marielle Franco, e a indígena pataxó Zabelê.
Marielle Franco é uma de nossas homenageadas mesmo que aparentemente sua trajetória seja distante de nossa realidade, pois ela sempre viveu no Rio de Janeiro. Entretanto, o assassinato de Marielle e Anderson foi um ataque à democracia acertando em cheio todas as minorias tendo em vista a importância representativa do corpo político de Marielle Franco. Principalmente quando pensamos Marielle como mulher, negra, lésbica, mãe, favelada, socióloga, mestre em administração pública e vereadora em um espaço ocupado majoritariamente pelo patriarcado e historicamente negado ao corpo feminino. Marielle moveu as estruturas por esse corpo diverso estar em um espaço heteronormativo e por sua voz evidenciar a luta pelos direitos humanos tendo como principal pauta a redução das desigualdades sociais. Homenagear Marielle é deixar viva sua luta que é nossa, mas principalmente para deixar florescer mais Marielles em todos os espaços e que elas não sejam silenciadas e que suas lutas, nossas lutas.
A nossa outra homenageada Zabelê – mulher indígena Pataxó, importante liderança dos povos indígenas do sul baiano, testemunha de um dos maiores (se não o maior) massacre do povo Pataxó na região do Sul e Extremo sul: O Fogo de 1951, um verdadeiro extermínio aos povos indígenas orquestrados pelo estado. Zabelê presenciou ainda criança seus pais sendo torturados e assassinados, o que poderia tê-la endurecido, no entanto, era um exemplo de amor e esperança: “uma anciã nativa, frágil, delicada, de profundo encanto e ternura”. Mulher que lutou até seus últimos dias de vida por terra para seus parentes, para manter viva a cultura do seu povo que teve seus direitos usurpados, nosso verdadeiro exemplo de luta política e que representa a luta de milhares de mulheres do Sul da Bahia. A sua História de vida nos move para pensar politicamente esse território marcado não só pelo verde das matas que ainda existe, ou pelo azul do mar que banha as cidades, mas pelo vermelho do sangue derramado nesse solo sagrado – e pela sangria continua que não estanca, desde a invasão desse território que um dia foi encantado. E que hoje se faz necessário buscarmos pelo encantamento nos nossos, através das diversas formas de re(existir) no Sul baiano.
Duas mulheres que através da luta travada nesse país singulariza o recorte temático do evento – Mulheres, culturas e políticas: Diálogos interseccionais, memória, poder e resistências no Sul baiano. Um evento que terá início não por acaso no dia 25 de julho de 2018, data em que é comemorada “Dia da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha”, no Brasil instituído desde 2014 como “o dia da mulher negra”. Para pensarmos e problematizarmos as lutas de mulheres desse território de identidade, que reverbera a aspectos do cotidiano de todas as mulheres desse país mesmo que ainda com suas especificidades. Que seja o primeiro passo para refletir e deliberarmos ações que possa contribuir para mudanças cotidianas necessárias. Pois como diz Jurema Werneck “os nossos passos vêm de longe”! Avante!