O I Seminário Regional de Ensino e Relações Étnico-Raciais é uma iniciativa dos mestrandos do Programa de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia – PPGER/UFSB. O primeiro ano de existência do PPGER/UFSB inicia-se em um contexto complexo nacional e internacionalmente, no que concerne às populações tradicionais, às relações étnico-raciais e de gênero. A complexidade deste momento histórico – a nível nacional – enseja a discussão por parte dos diversos atores que compõem a sociedade brasileira, a saber, os movimentos sociais e populares, a academia e outras militâncias políticas, a fim de compor um entrecruzamento de ideias, bem como uma agenda de intercâmbio de conhecimentos.

Se são complexas as demandas nacionais, complexas igualmente são as demandas regionais no campo das lutas sociais, ligadas ao combate ao racismo, em suas mais diversas formas e abrangências através da formação de educadores em espaços formais e não formais, principalmente nos movimentos sociais. Surge, assim, a necessidade de visibilizar e promover diálogos entre as produções acadêmicas, produções sociais dos coletivos feministas, mestres dos saberes tradicionais, e demais movimentos sociais que tenham por ordem as lutas contra hegemônicas, articulando uma rede de conhecimentos que ultrapassa os muros da universidade.

Nesta perspectiva, a temática escolhida para o I Seminário Regional de Ensino e Relações Étnico-Raciais não poderia ser outra senão a seguinte: “Mulheres, Culturas e Políticas: diálogos interseccionais, memória, poder e resistências no Sul baiano. Com isso, torna-se imprescindível salientar nos seminários os debates de diferenças de gênero, pertinentes por estar cotidianamente na sociedade. A categoria gênero foi introduzida pelos movimentos feministas na década de 70 fomentando o debate acadêmico norte americano, por volta da década de 90 chega ao Brasil com importância de debate internacional e nacional. A definição de gênero se apresenta em duas partes relacionadas: o gênero como elemento construtivo de relações sociais e baseada nas diferenças percebidas entre os sexos; e o gênero como forma primária de significar as relações de poder. Gênero é uma problemática social já que a partir dele se define espaços e lugares que diversas mulheres ocuparão, fazendo-nos refletir sobre algumas questões: as desigualdades observadas entre homens e mulheres e entre mulheres de diversas etnias e classes sociais.

As discussões de gênero, contudo, neste novo contexto sociopolítico em que o Brasil encontra-se imerso, surgem entrecortadas por outras categorias de importância fundamental: raça, classe e sexualidade.

As categorias classe e raça se fazem importantes como alicerce nos debates de gênero de modo a desnaturalizar a opressão, a violência, e a dominação em que vivem as mulheres do país e no Sul Baiano.  Segundo dados da ONU Mulher (2015) o Brasil é o quarto pais em mortes de mulheres, feminicidios, e a cada 24 horas uma mulher é estuprada coletivamente. O Mapa da violência (2015)mostra que houveram 517 mortes registradas nos 70 municípios do Sul e Extremo-Sul baiano. As duas microrregiões sustentam os dois primeiros lugares no ranking das áreas com maiores taxas de estupro da Bahia, enquanto no Extremo-Sul ocorreram 27,1 casos para grupo de 100 mil habitantes, no Sul essa taxa foi de 21,8. Apesar dos dados impactantes, questionam-se essas estatísticas, estima-se que este número seja maior, visto que muitas mulheres não procuram os órgãos competentes de proteção por desconhecerem seus direitos fundamentais.

Cabe lembrar que o Sul e o Extremo Sul Baiano é marcado por mulheres de diversos grupos étnicos-raciais: indígenas, quilombolas e ciganas que firmaram através de lutas e resistência seus lugares. A resistência destas mulheres é observada em lutas diárias por territorialidade, demarcações e reintegração de terras indígenas, de comunidades quilombolas e movimentos pela reforma agrária. Mulheres atuantes em movimentos sociais, lideranças que buscam assegurar e fortalecer o direito à terra como um direito humano.

Assim, o I Seminário de Ensino e Relações Étnico-Raciais segue o histórico processo de luta das mulheres dentro de um debate interseccional que compreenda as suas atuações políticas, culturais e de resistências inseridas nos diversos espaços sociais. No sentido de valorizar as diferentes lutas, práticas e saberes, a partir da interconexão entre a academia e os demais movimentos contra hegemônico. Também visa socializar as pesquisas empreendidas por pesquisadores na região, colaborando com a produção de tecnologia social para a realidade local. O Seminário procura criar espaços de diálogos dando visibilidade a pesquisas acadêmicas em intercessão com os saberes e sujeitos sociais em suas diversas áreas de atuação. A luta anti-racista, anti-xenofóbica, anti-patriarcal e anti-LGBTTfóbica surge da necessidade de dar visibilidade e estabelecer debates sobre as violências sofridas por minorias sociológicas.

Também, o seminário, alinha-se a implementação das prerrogativas legais antirracistas, estabelecidas na LDB de 1996 e redefinidas pela lei 10.639/03, assim como a lei 11.645/08, que estabelecem o estudo da história  e cultura Africana, Afro-brasileira e Indígena.  Essas correspondem ao desenvolvimento da luta do Movimento Negro e Indígena, uma vez que incorporam as demandas anti-racistas atende as necessidades educacionais e sociais no âmbito do respeito às diversidades. Pesando que a região do Extremo Sul Baiano é um território quilombola e indígena, marcados por uma historiografia de enfrentamento e resistência, é de extrema importância um diálogo entre universidade, comunidade e o ensino para as relações étnico-raciais.

O I Seminário Regional de Ensino e Relações Étnico-Raciais – “Mulheres, Culturas e Políticas: diálogos interseccionais, memórias, poder e resistências no sul baiano” tem por objetivo promover o encontro entre pesquisadores, movimentos sociais, mestres dos saberes, comunidade escolar e demais interessados para divulgação dos resultados das pesquisas acadêmicas, trabalhos promovidos por entidades, socialização de conhecimentos tradicionais que tenham como campo o espaço do Sul baiano, além de organizar material de pesquisas que sirvam de âncora teórica para novas pesquisas e discutir a implementação de ações afirmativas e políticas públicas direcionadas à população negra, debater e refletir questões de gênero e sexualidades, abordando a violência contra a mulher e o público LGBT e intermediar diálogos e ações entre as instituições de ensino básico e superior para a consolidação das Leis 10.639/03,11.645/08 e o artigo 26 da LDB/1996.